O que é RPG?

Já teve a sensação de não controlar sua própria vida? Digo, todos nós temos esse sentimento, vez ou outra na vida, de que somos meros veículos, corpos passageiros nessa longa estrada de aventuras. Não é disso que estou falando.

Falo daquele sentimento íntimo, último em nossa memória, de que não somos plenamente conscientes do mundo – dos mundos –  que nos cerca. Tem sido frequente nos meus dias, essa angústia. No fim das contas, o que realmente importa na vida? Riquezas? Vitórias em batalhas? Conhecimento e poder? Bem, seja como for…

…importante é que você está aqui. Com a gente. Então, viajante, seja bem-vindo.

Essa conversa é sobre o que é RPG. Se você já sabe, não precisamos tê-la. Mas, não vá embora ainda, eu te convido a ficar e ouvir assim mesmo. Mal não fará, certo? Puxa a cadeira e senta aí. Isso, essa mesmo.

Tudo bem se eu estiver bebendo um pouco enquanto conversamos, né? Se você quiser, pode pedir algo também. A taverneira é filha de um antigo amigo meu, eu tenho algum desconto nessa taverna. Vou chamá-la, ok? O que você prefere pedir?

Isso tá ótimo. Vou querer também.

Vamos lá. Então você quer saber o que é RPG, e não soube bem por onde começar. É isso? São letras que, juntas, não fazem o menor sentido. Digo, eu sei que elas significam algo, mas não tenho certeza do real valor delas.

Bom, eu preciso te avisar de duas coisas, cara. A primeira é que tudo o que eu vou te dizer é verdade. Cada detalhe problemático e minucioso. Então abra bem as orelhas e preste atenção. Vou tentar não falar muito rápido e manter frases curtas, de fácil entendimento. Como você pode ver, eu não sou fluente na sua língua, mas sei me arranjar bem pela vida.

Eu descobri isso há muito tempo, em meus áureos tempos de aventura. Naquela época, eu não era mais do que você é hoje: uma pessoa com um passado em busca de uma jornada para um futuro desconhecido. Bons tempos. É, a julgar pela minha barba branca, nem parece que já fui jovem, certo? Em uma dessas minhas andanças, meu grupo descobriu uma terrível verdade sobre esse mundo. “Esse”, você pergunta? Sim, eu disse “esse” porque existem outros. Mas isso você já sabia, não é novidade para ninguém. O que descobrimos é que não controlamos nenhuma ação durante toda a nossa vida.

Vou esperar você engolir tudo, senão engasga. Você ouviu perfeitamente bem: não dominamos nossas ações. Nosso mundo é governado por uma elite de agentes que decide cada passo que damos, cada escolha que fazemos. Quem amamos, contra quem lutamos, quando nascemos e morremos. Não, não estou falando dos deuses. Estes apenas influenciam nossa vida. Falo de seres maiores que os deuses. Aparentemente, esses agentes discutem entre si o que fazem com nossas vidas e consultam a algum tipo de juiz sobre o que podem ou não fazer.

Vou dividir os agentes entre “jogadores” – aqueles que controlam vidas individuais, uma por vez – e “narradores” – aqueles que julgam o que os jogadores fazem, e controlam o mundo todo, de uma vez só –, beleza?

Não entendi bem o motivo dos jogadores serem chamados assim. Aparentemente, o RPG é um jogo. Quem ganha com isso eu não sei, mas sei que nós aqui saímos perdendo. O jogo consiste em um narrador contar uma história e os jogadores serem os protagonistas dessa história. Simples, não é? É parecido com as atuações que os bardos fazem por aqui. O narrador é responsável por aprender as regras do sistema, organizar o cenário e conduzir a trama. Os jogadores interpretam protagonistas e utilizam de alguns instrumentos para decidir e recordar seus feitos.

Eu sei, eu sei, muitos nomes. Respira um pouco enquanto eu peço mais cerveja. Querida, traz uma pra mim e pra essa pessoa querida que está aqui comigo, ok? Obrigado, você é um anjo, manda lembrança pro seu pai que eu sei que tá lá na cozinha fazendo algum prato. Dá pra sentir o cheiro do tempero dele de longe.

Recuperou o fôlego? Certo, vou explicar termo por termo.

Um sistema é um conjunto de regras que diz o que pode ou não pode ser feito dentro do jogo. É uma forma de controlar e saber se determinada ação tem sucesso ou não. Por exemplo, tá vendo aquele cara ali? Isso, aquele ali com o dardo na mão tentando acertar o alvo. Ele vai arremessar agora, presta atenção. Ele pode conseguir acertar o alvo ou não. E mais: o próprio alvo é feito de níveis, então mesmo um acerto possui valores maiores que outro. Entendeu?

Você pode tratar o sistema como a nossa realidade propriamente dita. Afinal, é ela quem nos diz o que podemos fazer, e como podemos fazer.

Um cenário é uma ambientação, um lugar onde se passa a história. Aqui, esse vilarejo que estamos, pode ser considerado uma ambientação. Aparentemente, no RPG, é possível ter diversos tipos de cenários. Já ouvi falar de alguns futuristas, com pessoas carregando armas que disparam projéteis de luz, construtos de metal que pensam e falam sozinhos, indivíduos que invadem algum tipo de rede de comunicações invisível em busca de informações. Sim, parece loucura, um dos membros do meu grupo nunca foi o mesmo depois de termos descoberto isso. Ele tá ali no canto, aliás, olhando por cima dos ombros. Sempre assustado. Sempre com medo.

É, você pode dizer que essa taverna é um cenário, sim. Mas me parece ser um pouco mais que isso, sabe? Acredito que envolva largas extensões de terra, reinos. Às vezes mundos inteiros.

Já a trama é a história propriamente dita. É o conjunto de ações e consequências feitas uma após a outra, levando a alguma conclusão. Basicamente, é a nossa vida. Os jogadores… você vai terminar de comer isso? Não? Eu termino pra você, então. Bem, como eu ia dizendo, os jogadores pensam nas ações que seus personagens – nós! – irão fazer e seguem planejando os passos seguintes sempre com o aval do narrador do jogo, que normalmente possui uma história na cabeça e conduz os jogadores através dela. É algum muito interessante, se for parar pra ver. Claro, se tirar o fato de que estão brincando com vidas de verdade.

Ainda sobre a trama, ela, semelhante às histórias que contamos por aqui, possuem tons e climas diferentes. Uma mesma história pode ser contada de forma triste e melódica, como uma floresta amaldiçoada envolta numa névoa, ou agitada e vibrante, como uma batalha de guerreiros em uma arena. Se quiser, é possível contar uma história de uma forma que pareça mais sutil e ameaçadora, como uma escolta de um emissário a um reino distante.

Nem todos os sistemas vêm acompanhados de cenários. E nem todos os cenários comportam todos os tipos de tramas. Não posso te dar certeza, mas algumas combinações sistema x cenário x trama dão mais certo juntas que outras. Vou ao banheiro enquanto você pensa um pouco no assunto, tá? Ah, e a barda já vai passar o chapéu pedindo alguma recompensa pela música. Seja gentil e entregue essa moeda a ela, sim?

… voltei. Onde estávamos? Isso, instrumentos. Existem vários deles, mas vou citar apenas dois. O primeiro é o dado. Sim, como esses dados de jogos de azar. Ele é usado para verificar se uma ação foi bem sucedida ou não. O cara ali dos dardos, lembra? É como se o jogador que controla sua vida lançasse um dado cada vez que um dardo fosse arremessado. Se o resultado do lançamento do dado for bom, e eu acho que ser “bom” tem a ver com alguma dificuldade da ação em si, um sucesso é obtido. Se não for bom, ocorre uma falha.

O outro instrumento é a ficha. Basicamente, ela serve para que o jogador anote as informações do personagem – é, nós. – e possa se lembrar depois. Triste, não é? Como eles poderiam esquecer quem nós somos? Existem vários tipos de fichas e dados. Infinitos, não sei.

Existem tantas, tantas coisas que eu preciso te contar. Por enquanto, só essas informações bastam. A segunda coisa que eu iria te dizer esta noite é que, bem, não se sabe ao certo quantos agentes existem. E pior: eles nem sabem que brincam com vidas de verdade. E tampouco nós sabemos da existência deles. Quem me contou isso, você se pergunta, não é?

Já encontrei com um deles, mas isso eu conto outra noite. Pode deixar que eu pago a conta. Se quiser saber mais, e você vai querer, já sabe onde me encontrar.

Este texto foi postado originalmente para o grupo de jogo do autor. Como era composto de diversos jogadores e jogadoras de primeira viagem, foi uma forma singela de apresentar conceitos com alguma narrativa. Não se propõe a ser uma grande fonte de conhecimento, mas, às vezes, tudo que precisamos é de um gole d’água, não é mesmo?

Arte da capa: Stocksnap.io
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2 comentários Adicione o seu

  1. vangreyheart disse:

    Fantástico, admito que sinto falta das imagens… mas é melhor isso do que mante-lo para uma apreciação no modo solo 😉

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  2. vangreyheart disse:

    Republicou isso em :: Domus Lupus ::e comentado:

    O tipo de apresentação sobre “O que é RPG” que raramente se vê por aí.
    O argumento é dele: o meu postiço carioca Rafael Cruz ❤

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